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  Estudos de Literatura Amazonense ( Robério Braga )

Não se pode estudar a literatura amazonense dissociada da literatura da região amazônica, como de resto, há de buscar-se relação com a literatura brasileira, em sentido amplo, para que possamos compreender melhor as inter-relações intransponíveis e inseparáveis que, em alguns casos, assim se caracterizam, e o total distanciamento ou extemporaneidade que em outros tantos, se consubstancia. Nada há de sistematizado a respeito, especialmente no aspecto local, e as tentativas são modestas e parciais.

A ausência de um completo estudo científico da história do Amazonas dificulta a compreensão e análise clara das fases da literatura amazonense. Mário Ypiranga Monteiro com sua tradição de grande mestre enveredou por estes caminhos, mas ainda não os perseguiu inteiramente. Sua contribuição, entretanto, é decisiva.

Fases
Para orientação de estudo geral da literatura amazonense podemos propor uma decomposição em quatro fases, adotando indicação de Peregrino Júnior, ao que chama de "surtos literários"

A primeira fase - que está representada pelo apego ao real, descrição do homem e da terra, valorização dos costumes; segunda fase - a que se atribui à região a feição de Inferno Verde, pelo deslumbramento, apologia dos mistérios, exagero científico e poético; terceira fase - a de reação nativista que lança a idéia de Paraíso Verde em contraposição ao Inferno, a de lirismo mais fácil ao lado da informação detalhista; quarta fase - a que se insinua modernista, procurando adequar-se aos tempos já nascidos no sul do país.

Se é possível identificar a relação direta autores/obras/fases, vamos ver que Inglês de Souza e José Veríssimo estão na primeira fase; Euclides da Cunha na segunda; Raimundo Morais e sua larga bibliografia, Alfredo Ladislau e Jorge Hurley na terceira; e Gastão Cruls, Raul Bopp; Abguar Bastos e o próprio Peregrino Júnior; na quarta fase.

A partir daí outros tantos podem ser referenciados e analisados, avançando no modernismo e pós-modernismo.

Estudo de Casos

Erasmo Linhares
Erasmo do Amaral Linhares nasceu em Coari, a 02 de junho de 1934, e estudou no Grupo Escolar Plácido Serrano, quando foi aluno da professora Sebastiana dos Santos Pereira Braga, no Ginásio Amazonense Pedro II e na Universidade do Amazonas onde formou-se em Comunicação Social de cujo curso foi professor. Seus primeiros escritos foram publicados nos jornais estudantis, ainda no Ginásio.

Radialista, foi diretor da Rádio Rio Mar por longos anos, escrevendo diariamente, crônica radiofônica apresentada com temas da atualidade, de natureza política, social ou econômica. Foi contista. Autor de " O Tocador de Charamela ", lançado em 1ª edição em 1979, e em segunda edição em 1995, esta pela Universidade do Amazonas.

O que se vê no livro Tocador de Charamelas são contos com narrativa limpa, direta, linguagem possivelmente herdada da prática profissional no rádio, em que tudo deve ser dito de forma compreensível mas em poucas palavras. De forma quase telegráfica.

Como jornalista acompanhou dramas humanos, viu mitos serem destruídos, integrou grupos críticos ainda na juventude e, estando sempre inteirado e próximo dos acontecimentos e com clara visão do cotidiano, parece ter conseguido reunir contos sintonizados com a necessidade de refletir este cotidiano angustiante e dramático.

O que propõe como título e insinua ser o conjunto da obra não reflete o conteúdo e os temas explorados. Seu livro, verdadeiramente, não é uma orquestra desafinada, mas ficou nas prateleiras alguns anos, à espera de estudos e avaliações. É com ele e outros poucos que, a meu ver, o Clube da Madrugada como movimento literário e não como associação institucional de escritores retoma o fio mais puro de sua proposta inaugural ou, pelo menos, se põe diante do público. Situações pessoais podem estar nos limites da sua angústia e sufocação, e o veio do jornalista-radialista há de ter impelido o escritor para um discurso inconformista.

Homem simples, de andar arrastado, professor por todos acolhido no curso de Comunicação Social da Universidade federal mostrou-se resistente às suas próprias dificuldades pessoais, mas a sua produção literária poderia ter sido extensa e densa, bastando que publicasse as crônicas radiofônicas, as memórias de jornalista e as aulas esquemáticas.
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Integrou o Conselho Consultivo de Cultura, criado no governo Amazonino Mendes, quando com ele convivi mais intensamente, acompanhando suas preocupações com as questões sociais e com o verdadeiro papel da imprensa. Faleceu em Manaus.

Anthístenes Pinto
Anthístenes de Oliveira Pinto, nasceu em Manaus a 28 de novembro de 1929, foi escritor premiado e membro titular da Academia Amazonense de Letras, do Clube da Madrugada, do qual foi presidente e da União Brasileira de Escritores do Amazonas. Na administração pública foi diretor da Fundação Cultural do Estado, diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação de Manaus e diretor do Museu do Porto.

Seu primeiro livro é de 1957 - Sombra e Asfalto , poesia. Chegou há mais de quinze títulos publicados, entre poesia, romance, ensaio e novela. " Várzea dos Afogados " é romance lançado em 1982 e publicado em 2ª edição em 1986, esta com apresentação do padre e escritor Luís Ruas.

Os conflitos e crescentes dificuldades que vive o homem do interior diante do tempo das águas, suas promessas de esperança e suas mazelas, e do homem que, encantado, vem do interior para a capital, homem ribeirinho que em sua maioria aqui se põe nos fundos de vale, na beira do rio, por sobre as águas, tudo está na pintura e no contexto do romance de Anthístenes Pinto. Os dramas na cidade grande para os filhos humildes, despreparados para os usos e costumes citadinos estão no livro, que, ao final atua como um convite para que se reflita sobre esta realidade urbana e rural, a asfixia pela água no interior e pelo tumulto de vida na cidade - capital.

Foi um ficcionista moderno e procurou registrar o quadro de misérias e de graves e gravíssimas injustiças, e nesta obra tem tons de denúncia social com linguagem às vezes contundente mas realista.

A 2ª edição melhorou - reformou - por assim dizer, a 1ª edição, de estética regionalista, estabelecendo relação e contrastes entre o homem no interior e na capital. É muitas vezes grotesco, com personagens simples, pouco apurados, até mesmo no pano de fundo que é a defesa dos injustiçados. Seu valor está em cuidar do homem simples, assumir a sua defesa, como dizem alguns críticos.

Terra Firme " é romance com 1º edição em 1970 e 2º edição em 1982, em linguagem que o identifica, ressalta os dramas do interior em cujas cenas o homem procura suas raízes e só encontra hostilidades. Construiu com este livro e outros uma saga interiorana, retratando a vida e os dramas regionais.

Faleceu em Manaus.

Max Carphentier
Max Carphentier Luís da Costa, nasceu em Manaus a 29 de abril de 1945. Advogado, bancário e escritor, é membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, da Academia Amazonense de Letras, da qual é o atual presidente, do Clube da Madrugada e da União Brasileira de Escritores, do Amazonas. Tem sangue e tradição de poeta, herdados naturalmente de Hemetério Cabrinha, seu avô, um dos autores a espera de estudos.

Seu primeiro livro foi " Quarta Esfera ", em 1975, poesia. Premiado, tem outros títulos de poesia, conto, romance e discursos acadêmicos em cuja prosa faz poesia com primoroso sentimento espiritualista.

" O Sermão da Selva " foi publicado em 1ª edição em 1979, e é o segundo livro do autor, e em 2ª edição em 1982. A apresentação original é do professor Arthur Cézar Ferreira Reis. A obra inaugura, para o autor, a concretização da linguagem espiritualista com a qual vem enveredando insistentemente na literatura amazonense, mas junta como pano de fundo a exaltação a natureza amazônica. Canta a terra, o conjunto de belezas. Canta o Paraíso.

Para Carlos Drumond de Andrade é a poesia a serviço da vida, porque em defesa da floresta amazônica que ele classifica de " bem da humanidade que nos cumpre defender ".É uma " vibração telúrica na esteira do Sermão da Montanha ", como pretende Carlos Araújo Lima. Atua como poeta e, aqui e ali, como profeta poético da vida e da morte da floresta amazônica.

O autor é um homem manso e inquieto, angustiado e aparentemente resignado. O livro, como suas obras seguintes, inclusive discursos, ensaiam conversas com virgens santas, com seres inanimados que a força divina transforma, ambienta divindades no mundo de hoje.

O Sermão da Selva é um único poema dividido em quatro partes, de louvação, de exaltação eloqüente e embora o autor não seja um bom orador, produz quase sempre peças que oradores sacros, em especial, consagrariam na tribuna. É uma meditação em forma literária.

(*) RB é historiador, ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e atual presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e Secretário de Estado da Cultura, Turismo e Desporto.


 

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