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 Praça da Polícia ( Robério Braga )

Conhecida popularmente como praça da Polícia, a praça de Heliodoro Balbi tem história peculiar na formação urbana da cidade de Manaus. Antes de ser organizada como logradouro público, ladeada pelo edifício do Ginásio Amazonense Pedro II e pelo antigo Regimento Militar, era um pedaço de chão que parecia destinado a recolhimento e passeio da população, um imenso descampado.

Vários nomes foram dados ao logradouro. Oficiais ou não. Largo do Liceu, Largo do Palacete, Largo 28 de setembro, Praça da Constituição, Praça Gonçalves Ledo, Praça Roossevelt, Praça João Pessoa. Cada nome tinha uma razão histórica. Largo do Liceu referia-se ao fato de estar diante do Liceu Amazonense, nome que foi dado a escola secundária erguida em 1886, depois Ginásio Pedro II. Largo do Palacete porque também naquele lugar ficava localizado o prédio do Palacete Presidencial, onde moravam e cumpriam missões de governo os presidentes da província do Amazonas até 1888, no mesmo edifício onde está o Comando Geral da Policia Militar. Largo 28 de setembro em homenagem a lei do ventre livre, que data de 1871 mas a denominação para a praça resultou de proposta do vereador José Justiniano Braule Pinto em 1872. Praça da Constituição em homenagem a promulgação da primeira constituição do Estado do Amazonas(1891), ao tempo do governador Eduardo Ribeiro, depois de receber calcetamento em paralelepípedos.

Em 1895 na administração do Pensador, foi dividida em duas seções, cortada pela rua de Marcílio Dias para permitir a passagem da linha de bondes, que serviria também diretamente ao Congresso Estadual que funcionava no prédio do quartel policial.

Sua construção e ajardinamento foi determinada em 1906, sendo prefeito de Manaus o coronel e comandante da Policia Militar, Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, situa-se entre as ruas de José Paranaguá, dr Moreira, Guilherme Moreira e avenida Sete de Setembro, tendo ocupado inicialmente uma área de 6.600 metros quadrados.

A nova praça, por assim dizer, foi inaugurada às 16:30 do dia 23 de junho de 1907, aniversário de governo Constantino Nery, na presença de várias autoridades e populares, lavrando-se, como de hábito, ata da solenidade. Seguindo linhas européias, especialmente francesa em todo o seu traçado, com jardins singulares, um pavilhão de ferro erguido sobre base de alvenaria de pedras, lago artificial cortado por uma ponte de cimento armado, uma gruta com cascata, um chalé de alvenaria de tijolo para guardar as ferramentas que cuidariam da sua conservação, um fonte de ferro fundido e diversas estatuetas de ferro sobre alvenaria e pilastras de pedras. Um catavento colocado no pátio interno do quartel, abastecia com a água necessária para o funcionamento da cascata e na gruta onde jorrava a água, podia-se ver um tanque com exemplares de jacaré , pirarucu, piraquês e patos.Havia outra vida na praça, com as retretas da banda de música.

Em 1911 sofreu reformas com a pintura das estátuas e remodelação dos jardins, sendo prefeito o dr Jorge de Moraes. Em 1914 novas reformas, quando era prefeito o dr Dorval Pires Porto, depois governador do Estado deposto pela revolução de 1930, sendo plantadas fícus-benjamins, 30 roseiras, 190 outras mudas de plantas ornamentais, passando a ser cuidada pelos alunos do Ginásio Pedro II. Em 1920 receberia profundas reformas na administração do prefeito Basílio Torreão Franco de Sá, modificando o seu traçado original incluindo quase uma centena de bancos de madeira, gaiolas de araras, macacos, cotias. Em 1923 já era possível ver os jardins simétricos.

Em 1926, na administração de José Francisco de Araújo Lima, o grande autor de Amazônia - A Terra e o Homem, sofreu reformas com a demolição da casa da guarda, a transferência da fonte para a avenida 13 de maio, atual Getulio Vargas, perdendo também, a seguir, na administração do prefeito Admar Thury, a gruta artificial e algumas palmeiras que a embelezavam demasiadamente.

Em 1938 passa por novas reformas, na administração do prefeito Antonio Botelho Maia, quando foram plantadas as Nogueiras, copiando um pouco a praça Paris, do Rio de Janeiro., sendo dividida em duas seções, surgindo a praça João Pessoa, entre as ruas Marcílio Dias e Guilherme Moreira, onde foi edificado pequeno coreto com as colunas oriundas do Teatro Amazonas

Nos primeiros anos de 1950 surge o Café São Jorge, depois Café do Pina como é conhecido até os dias de hoje, fazendo história e sendo palco de inúmeros episódios interessantes da vida boêmia de Manaus, da política e das letras. Em 1 de dezembro de 1953 passa a receber a denominação oficial que ainda guarda nos dias de hoje praça de Heliodoro Balbi, quando era prefeito de Manaus o dr Aluízio Marques Brasil. Era a transmudação do nome então conferido à praça existente em frente ao colégio Dom Bosco que passou a merecer o nome daquele religioso.

Heliodoro Balbi nasceu em 16 de fevereiro de 1876, sendo filho de Nicolau Balbi e Domiciana Balbi. Formou-se em Direito na faculdade do Recife, sendo orador da sua turma. Foi professor de Literatura do Ginásio Amazonas Pedro II, por concurso, laureado em primeiro lugar. Integrou o grupo de fundação da Academia Amazonense de Letras (1918), político e jornalista combativo, foi figura emblemática na região durante muitos anos. Disputou a deputação federal pelo Amazonas e em 1906 integrava o Partido Revisionista. Faleceu em Rio Branco do Acre, em 26 de novembro de 1918, mas seus restos mortais foram depois transladados para Manaus.

Em 22 de novembro de 1954 ali na praça foi fundado o Clube da Madrugada, debaixo do mulateiro, servindo como movimento cultural e literário de renovação das letras e artes no Amazonas.

Sua feição seria novamente modificada na administração do prefeito Jorge Teixeira de Oliveira (1975-1979), com o deslocamento do café do Pina, então localizado no corredor central da vida pública, para o canto da praça da Policia, seguindo-se a reforma completamente modificadora do prefeito Manoel Ribeiro, retornando em grande parte, ao traçado definido em 1920 pelo prefeito Basílio Torreão Franco de Sá, mas foi aberta à comercialização de gêneros alimentícios. Nova paisagem seria formada na administração do prefeito Arthur Virgílio Neto com a construção da passarela Felix Valois Coelho, edificada na base da praça pela rua de Floriano Peixoto e a tribuna livre, púlpito destinado a simbolizar a liberdade de manifestação do povo naquele lugar histórico, conforme determinado pela Lei Orgânica de Manaus. A seguir, na administração Alfredo Pereira do Nascimento, recebeu os gradis que procuram conservar os seus jardins.

Nela persistem com estilo o coreto art-noveau, com espetáculos de arte aos fins de tarde, quando os violinos, orquestras e canto se fazem ouvir pela população que ocupa o auditório especialmente montado para este fim. Desde 1998, regularmente, a praça voltou a ser palco de atividades artísticas com o programa Clássico para Todos desenvolvido pelo governo do Estado através da Secretaria de Cultura. E nela se podem ver os bustos de Ferreira de Castro e Bruno de Menezes, o primeiro deles vulto singular da literatura portuguesa e o segundo, destaque da poesia amazônica e a homenagem a Gonçalves Dias, o grande poeta maranhense que viajou ao Amazonas nos tempos do Império.

(*) RB é historiador, ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e atual presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e Secretário de Estado da Cultura, Turismo e Desporto.


 

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