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  Getúlio Vargas em Manaus ( Robério Braga )

1940.

O Rio de Janeiro era o centro do poder. Do Palácio do Catete emanavam as decisões presidenciais, mas a presença de Getulio Vargas deveria se expandir ainda mais, diretamente pelo País. O Norte precisava ser visitado. Com esta determinação, o presidente seguiu do Rio de Janeiro para Belém, com parada técnica na Bahia; de Belém para Belterra e de lá até Manaus indo depois a Porto Velho.

O que terá trazido o presidente ao Norte do país? O sonho da juventude? que ele anunciou de logo no discurso pronunciado aos 10 de outubro no Ideal Club quando afirmou, "Senhores - ver a Amazônia é um desejo de coração na mocidade de todos os brasileiros", a necessidade de consolidação do poder político ? ou veio mesmo ver de perto se tinham sido confirmadas as previsões de 1933, quando assegurou de forma categórica: "A Amazônia ressurgirá".

É verdade que a Amazônia seduzia e seduz a todos. Estimula, encanta, desafia, provoca, e a todos vence.

Como era natural na acanhada cidade encravada na selva, bucólica, e ainda vivendo forte saudade do esplendor do período áureo da borracha, Manaus se preparou para receber o presidente, e desde os primeiros dias de setembro diversas providências começaram a ser tomadas, emanadas de reuniões no Palácio Rio Negro com autoridades da administração e empresários.

Outubro, 9.Parintins.
Foi na terra dos parintintins o primeiro contato do presidente em solo amazonense. Para reabastecer o avião, no curso da viagem de Belém para Manaus, tendo saído de Belterra às primeiras horas do dia, o presidente Vargas desembarcou em Parintins onde foi recebido pelo prefeito, ao lado do chefe da colônia dos japoneses, sr Xahamara. O avião Comodoro, da Cruzeiro do Sul Transportes Aéreos levantou vôo por sobre a mata virgem, a que o jornalista de A Tarde, do Rio de Janeiro, em notícia veiculada naquele órgão, assim se refere: A viagem foi feita por sobre aquele desnorteante espetáculo deste pedaço do globo, onde a terra ainda está sendo construída.

O presidente Getulio Dornelles Vargas chegou a Manaus, a cidade sorriso. Eram 13:30 horas. Desde cedo era intenso o movimento de operários, populares, estudantes, autoridades e militares. Em alas, os estudantes se enfileiravam do cais do porto até o Palácio Rio Negro, nas ruas embandeiradas com cores vivas e frases de efeito, escolhidas entre inúmeros discursos e entrevistas do presidente, falando da
Amazônia.

Desembarcado, saudado por banda de música e cumprimentado pelo Interventor Federal, o Dr Álvaro Botelho Maia, o presidente Vargas desfilou entre o povo e os estudantes que agitavam bandeirolas por todo o trajeto, até o Palácio onde ficou hospedado.

Flores em pétalas caíram sobre o presidente, lançadas pelas alunas da Escola Normal, e o avião aquatizou cercado por pescadores e barcos esportivos. Após o desembarque do presidente, desceu do avião o dr Gurgel do Amaral. Na comitiva pelas ruas da cidade, em carro aberto, Getulio Vargas, Vivaldo Lima então candidato do Partido Trabalhista Brasileiro ao Senado da República, Gregório Fortunato e o interventor Álvaro Maia. Na praça do Congresso uma multidão se aglomerava com faixas que enalteciam Vargas e Álvaro Maia.

As delegações operárias portavam faixas de louvação, com frases do tipo "Aclamemos o homem que vai salvar a Amazônia" ou "Viva o presidente que nacionalizou o nosso trabalho e instituiu as leis sociais". No trajeto foi saudado pelo prefeito de Manaus, o dr Paulo Marinho. No Palácio foi à sacada de onde acenou para o povo, pouco antes do almoço.

Conheceu as autoridades militares no Estado: o comandante do 27º Batalhão de Caçadores, o inspetor do Porto, comandante Odenato Moura, e o coronel José Pessoa, da Polícia, além de outras personalidades com as quais dialogou animadamente, especialmente com o inspetor da Saúde Pública, o diretor do Ensino e o juiz de menores, o dr André Vidal de Araújo.

Na residência do deputado Alfredo Jackson Cabral, o presidente mereceu um jantar com autoridades e políticos locais, e no quintal na rua Alexandre Amorim, no bairro de Aparecida, organizada uma larga mesa, podia-se ver várias autoridades e figuras da república como o embaixador Batista Luzardo, os deputados estaduais Plínio Ramos Coelho, Áureo Mello, o jornalista Umberto Calderaro Filho, Albérico Antunes de Oliveira, observados por populares que espreitavam na cerca de acha de lenha, os vizinhos simples e pobres do deputado amazonense.

O presidente veio, viu, prometeu e comprometeu-se com os célebres discursos proferidos em praça pública, animou escritores locais, agitou a política amazonense, despertou forte o seu partido político e, contemplando a natureza amazônica, foi sobre a mata selvagem que também pilotou o próprio avião presidencial. De sua passagem restam também os inúmeros registros em vias públicas, praças e logradouros, e o busto colocado no hall de entrada do Palácio Rio Branco, sede da Assembléia Legislativa do Estado.

(*) Robério Braga é historiador, presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e atual Secretário de Estado da Cultura, Turismo e Desporto.


 

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