Tirante a canoa, que os primeiros cronistas
batizaram com o sugestivo nome “montaria” (cavalo dágua),
e que era e ainda é veículo de grande popularidade,
mesmo para viagens longas e demoradas entre o Lugar da Barra
e o Alto Solimões (até Nauta, no Peru) e/ou o
Madeira, até Santa Maria de Belém, o regime era
a “patriota” (pisante = andar a pé). Concebe-se que uma
área tão exígua como era a da Barra de
1700, por exemplo, até 1840, o recurso individual era
o pé, mas depois que se criou o “cinturão verde”
ou “cinturão econômico”, com as famosas “rocinhas”
situadas fora do perímetro dito urbano, a situação
piorou. É verdade que os igarapés do Espírito
Santo, dos Remédios, da Cachoeirinha, da Cachoeira Grande,
facilitavam as comunicacões, por água, mas por
terra havia uma série de perigos desafiando a coragem
e a paciência dos pés caminheiros. Por exemplo,
o Caminho da Cachoeirinha (hoje avenida de Sete de Setembro)
se estendia da Alameda dos Tamarindos (primeira avenida com
árvores racionalmente plantadas e que se pode ver em
fotos antigas) até depois da rua de Antimari, onde as
rocinhas de anil, de tabaco, de mandioca, e os “queixos de velha”
abundavam. Para chegar até essa região, são
e salvo, sem borbulhas nos pés, sem encontros eventuais
com onças e índios Mura, sem cobras nem assaltantes
de cor (escravos fugidos) você andaria melhor remando,
mesmo porque naquela idade não havia pontes nos igarapés
afastados.

Merece
reparo o pastoreio iniciado por Lobo de Almada no Rio Branco.
Vem daí o aparecimento do cavalo como meio de transporte,
aliviando os pés caminheiros. Ele vai servir principalmente
ao carvoeiro distribuidor do combustível (os primeiros
foram portugueses, que trouxeram a novidade) do carvão
vegetal invés da lenha em ser. Já nos séculos
seguintes o cavalo é utilizado em veículos de
madeira denominados andilha, liteira, cadeira de arruar, berlinda,
landau (no museu do lGHA havia os restos mortais de um, da Prefeitura),
coche, tilburi, charrete, caleça, mas positivamente nunca
tivemos carros faustosos, modelo Luís XV e outros. Desses
veículos, o que se tornou depois popularíssimo
mesmo em Manaus cidade, foi o “carro de luxo”, uma sege tirada
por parelha. Era tão estimada e popular que havia oficina
de construção, na avenida de Joaquim Nabuco, residência
dos proprietários, Empresa Cerca & Nazaré
(Ruas). Serviu ao povo até a década de trinta,
mais ou menos. Pode ver-se em fotos estacionamentos nos locais
mais freqüentados pelo povo, como zona do Mercado, praça
da Matriz, avenida de Eduardo Ribeiro. Possuíam quatro
rodas, as duas da parte trazeira maiores e uma alta boléia
onde ficava plantado o homem das rédeas, denominado “boleeiro”.
Naquele banco ainda cabia uma pessoa, mas do sexo masculino.
A sege comportava de seis a oito pessoas porque os bancos eram
da largura do veículo e havia ainda banquinhos escamoteáveis
para crianças. Os que chegamos a ver e a utilizar, eram
ainda forrados de damasco vermelho e a boléia era de
couro, conversível. Não tinham portas, por isso
que ficavam devassadas. Das quatro rodas, as diante eram menores,
a fim de compensarem o espaço destinado ao jogo do varal
ou lança. E obrigadas por lei a serem calçadas
com superficies de borracha ou crepe. Eram veículos preferidos
no Carnaval, com a boléia arriada onde as moças
sentavam, mas também os mortos possuíam o seu,
todo negro, com os bonitos cavalos ajaezados de dourados com
plumas nas cabeças. Destes haviam os da Casa de Misericórdia
e da Beneficente Portuguesa.
Rede de cambão. De seguro alguém já viu
em desenhos ou fotos atuais esse tipo de transporte individual,
tanto para vivos como para mortos. A rede foi em todos os tempos,
na América sulina, aquele lectns pensile que causou furor
na Europa, quando Colombo levou delas para seu rei. A vantagem
da rede é que ela é para tudo: tanto serve para
fabricar filhos como para marchar para o Oriente Eterno, ou
dormir, comer, ler, sonhar, filosofar, etc. Ainda hoje é
utilizada como meio de transporte fácil e barato, usando-se
apenas um cambão e dois transportadores. Durante as soalheiras
ou com tempo chuvoso, defende-se o usuário passando um
protetor por cima do varal, tecido que pode ser de palha.
Cadeira de arruar ou “cadeirinha”, antigamente denominado andilha
e liteira. Imagine-se uma cadeira estofada, metida num bioco
de couro ou de madeira, com portas laterais, janelas de vidraca,
apoiada em dois cambões, que os escravos ou lacaios seguravam
firmes, às vezes nos ombros. Esta era o modelo mais modesto,
porque havia outras em que os homens eram substituídos
por cavalos. Era maior, mais cômoda e mais ventilada,
aceitando janelas com vidraça. Segundo informações
pessoais o modelo menos pomposo foi o usado pelos proprietários
de rocinhas afastadas. Só tinha dois assentos, frente
à frente, mas podia receber quatro pessoas, desde que
não obesas. Entretanto havía-as destinadas a quatro
pessoas, isto é, mais largas e mais pesadas, admitindo
quatro transportadores ou dois cavalos. A cadeirinha possuía
a forma retangular, mas as mais distintas, de estilo, eram de
paralelogramo ou trapezoidais, com torneados e incrustações
de marfim
.

Berlinda. Esse foi o tipo de veículo individual que teve
fraca repercussão em Manaus, até o princípio
do século XX, quando a introdução dos primeiros
automóveis matou a poesia romântica do passado.
Era mais suntuoso do que as seges acima aludidas, e o sistema
de molas mais complicado, que fazia do veículo uma traquitana
adoçada pelos calçados de borracha crepe. Tinha
duas portas laterais e janelas envidraçadas. Como se
vê era veículo para gente fina. Só se tem
certeza da existência dela em Manaus pelo “Jornal do Comércio”
que publicou uma notícia a respeito do padre dr. José
Manuel dos Santos Pereira, professor, residente na estrada Sete
de Dezembro (Joaquim Nabuco), dono de uma. Mas havia outras,
de propriedade do Barão de Bastos, dos genitores dos
doutores Almir e Adalberto Pedreira (informações
do último), e esses grandes veículos requeriam
por sua vez cavalariças espaçosas. Aliás
foi a época em que todas as casas nobres de Manaus possuíam
garages e não só estas como as repartições
públicas.
Tilbury, tilburi - Era um carro leve, de duas rodas, tirado
geralmente por égua por causa da altura. Possuía
cobertura manobrável, em forma de tejadilho, e era aberto.
A cobertura nascia da boléia, por isso o veículo
só se prestava para uma pessoa que a dirigia. Introduzido
pelos ingleses da Manáos Railways, no princípio
do século vinte, entrou na moda e os súditos alemães
Waldemar Sholz e Deffner dirigiam eles mesmos os seus carros,
quando iam para o Deutsche Klub, no começo da avenida
de Constantino Nery, onde foi a sede do Olímpico Clube.
Existe uma foto muito requisitada, que documenta um atravessando
a trote a avenida de Eduardo Ribeiro. Esse tipo de veículo
pessoal resistiu até recentemente, década de vinte,
quando o último (ou um deles) ainda circulava desde a
Vila Municipal até o hangar dos bondes da Manáos
Tramways, na Cachoeirinha. Por ser pequeno e leve não
exigia grandes espaços para abrigo.
Cabriolé. É uma versão melhorada do tilburi,
para duas pessoas, porém leva atrás um estribo
para o trintanário. Tirado por um só animal.
Charrete. Carro de duas rodas de diametros maiores, com dois
varais para uma parelha de cavalos. Possuía a forma mais
ou menos retângular, com assentos e boléia para
duas pessoas incluindo o boleeiro. Entretanto, denominava-se
charrete ou charriote a um veículo do mesmo tipo. Mais
ou menos até 1917, um alto funcionário dos Correios
e Telégrafos usava de uma, e a égua, muito educada,
chamava-se “Nelly.” Após deixar o dono na repartição,
que ficava na praça de Quinze de Novembro, a égua
voltava sozinha para casa, pois o dono, que residia na Vila
Municipal, almoçava na cidade. Na hora de ir buscar o
patrão, o jardineiro e tratador atrelava-a e deixava-a
ir. Nunca a “Nelly”, que era potranca, desviou-se do caminho
por causa de algum garanhão. E depois que pariu, o potro
ia ao seu lado, trotando alegremente. Publicamos uma nota, a
respeito dessa charriote, porque chegamos a conhecê-la
de perto, quando menino. Introduzida pela colônia francesa,
não teve muita popularidade.
Esta primeira entrega (etapa) será o ponto de partida
para melhores explorações, maiores detalhes, principalmente
leis, quando ajuntarmos a outra parte que trata dos veículos
coletivos.