Com segurança mesmo o ano de 1890, mas sem data definida,
o Palacete transmudou-se em Quartel, ocupado pela Polícia
Militar. Não restam dúvidas, a posse ocorreu durante
o curto governo republicano de Augusto Ximeno de Villeroy, tenente
do Exército. Logo que assumiu o governo, Villeroy modificou,
consoante o Decreto n° 11, de 13 de janeiro, a denominação
da força militar estadual de Corpo Policial do Amazonas
(um resquício da monarquia) para Batalhão de Polícia,
copiando em tudo a estrutura do Exército. Não
terá ocorrido nesta data, ou próximo desta, a
ocupação do palacete pela Força? Qualquer
que seja o dia, comemora, no decurso deste ano, onze décadas
de posse, a despeito de uma provisória desocupação,
sem que a alma miliciana fosse dali expurgada.
Desde a instalação do novo regime, o governo do
Amazonas era exercido por oficiais do Exército e da Armada.
Em 1895, ocupava-o Eduardo Gonçalves Ribeiro (1892-96),
capitão do Exército. Compete-lhe, entre tantas
primazias, a iniciativa de ampliar o primitivo Palacete para,
preservando as linhas originárias, transformá-lo
em condigno aquartelamento, abrigo do Batalhão Militar
do Estado (nomenclatura da ocasião). O bronze que assinala
o feito, afixado no frontispício do quartel, apenas indica
o nome do realizador e do ano.
Em 8 de novembro de 1897, a tropa do 1° batalhão
de infantaria do Regimento Militar do Estado (nova denominação),
sob o comando do tenente coronel Cândido José Mariano,
de regresso da Campanha de Canudos, é recebido neste
quartel, consagrado pelas salvas e reverências de seus
pares. A imortalidade do feito sobre Canudos se encontra gravada
no pórtico do quartel da Praça da Polícia.
No ano seguinte, extraído do Relatório dos trabalhos
realizados pela Diretoria de Obras Públicas, sob a direção
de Eugênio Ramos Villar,. enviado ao governador do Estado,
José Cardoso Ramalho Júnior (1898-1900). "O
Batalhão de Segurança [o quartel da Praça
da Polícia] está sendo completamente reformado,
tendo-se feito os seguintes trabalhos: demolição
e construção da fachada da ala esquerda, reforço
de alicerces e pilastras; novo assoalho, mudança nas
escadas, cimentação de pátios e banheiros,
conserto total de telhados e parte do madeiramento, substituição
de venezianas, guarda água, portas, conserto nos antigos
water closet e assentamentos de novos reparos nos fogões;
assentamento de pias, caixas de água, pintura a óleo
e caiação de todo o edificio, exceção
da frente, construção de gigantes, linhas de esgotos,
derivações internas e extinção de
um formigueiro".
Ao final de 1900, as determinações do governador
Silverio José Nery (1900-04) ao Regimento Militar do
Estado foram de que executasse as salvas regulamentares de tiros
de canhão, pela transição do século.
A ordenação procedia, pois existia uma fração
de artilharia com os necessários apetrechos. Hoje, às
portas de um novo milênio, a saudação não
poderá ser repetida, simplesmente não mais existe
canhão no Quartel da Praça Heliodoro Balbi.
O movimento revoltoso das Forças federais, ocorrido em
8 de outubro de 1910, promovendo um ataque pelas armas, que
se conhece por Bombardeio de Manaus, feriu não
apenas as instituições constitucionais, mas, em
especial, arrasou parte deste quartel. Entretanto, venceram
a ordem e a Força Policial, que soube defender com denodo
e lealdade ao governador do Estado, Antônio Clemente Ribeiro
Bittencourt (1908-12). Em nova ocasião, o Quartel da
Praça da Polícia foi cercado por Forças
federais. Em 23 de julho de 1924, a "rebelião tenentista"
contra o governo estadual, dirigida por oficiais do 27°
BC, surpreendeu a Força Policial e ao próprio
governador, César do Rego Monteiro (1921-24). Ambos foram
derrotados. O Quartel permaneceu sem danos materiais, e foi
defendido por um punhado de intrépidos policiais, à
frente seu comandante, o coronel (da reserva) Pedro José
de Souza, que sustentou uma refrega desigual até cair
ferido por balas adversárias.
Em 29 de novembro de 1930, como desdobramento do "golpe
getulista", ocorreu um dos momentos mais aflitivos para
a Corporação. Quando sem explicações
plausíveis, foi extinta a força militar estadual,
por ato do interventor federal no Estado, dr. Álvaro
Maia. Os policiais, cerca de trezentos homens, foram aproveitados
em diferentes serviços. O quartel desocupado dos policiais
serviu, de pronto, para abrigar o serviço de Bombeiros.
Todavia, diante de seu amplo espaço, o quartel foi mesmo
transformado em escola, abrigando as alunas da Escola Normal,
no andar superior, e o grupo Escolar Barão do Rio Branco,
no térreo. Para atender a esta nova finalidade, outro
interventor, o capitão (do Exército) Nelson de
Mello (1933-35), promoveu diversos melhoramentos no prédio,
ocasião em que se construiu o segundo piso lateral, pela
rua José Paranaguá.
Em 1936, a 26 de abril, aconteceu a tão almejada reativação
da Força Policial. Como o antigo quartel estivesse ocupado
por estudantes, a corporação se abrigou precariamente
em outras edificações do Estado. Apenas em 1942,
sob o comando do major (do Exército) Gentil João
Barbato (1941-45), que coordenou o emprego de seus subordinados
na ajuda à construção do Instituto de Educação
do Amazonas, a Polícia Militar retornou por completo
ao "antigo ninho".
No primeiro governo de Gilberto Mestrinho (1959-63), que concedeu
amplo apoio ao comandante, coronel (comissionado) Francisco
Assis Peixoto (1959-62), o quartel da Praça da Polícia
recebeu fortes reparos. O mais marcante - o reparo geral do
rancho, - quando ocorreu (pasme!) a moderna substituição
do fogão a lenha pelo de gás liquefeito. Em 1972,
sucede outra marcante reforma na edificação, por
iniciativa do Comandante Geral, tenente coronel Paulo Figueiredo
Andrade de Oliveira (1971-73), arrimado pelo governador do Estado,
João Walter de Andrade (1971-75). Na parte externa, substituiu-se
parcela do telhado original por telhas de fibrotex, as quais
foram trocadas pelas atuais de alumínio, na restauração
de 1993. O espaço interior foi redividido, empregando-se
madeira e fórmica, propiciando aos policiais um ambiente
mais agradável e com relativa funcionalidade. Na execução,
contudo, desta remodelação, foram obstruídos
os arcos que dividiam as salas e, sem atentar para o originário,
acrescentaram deselegantes janelas aos vãos do corredor
superior. Quem observar pela avenida Floriano Peixoto, aos fundos,
percebe a mácula e o mal gosto.
O governador do Estado, Henoch da Silva Reis (1975-79), sancionou
a Lei n° 1206, de 3 de dezembro de 1976, autorizando a alienação
de um imóvel, ou seja, a sede do comando geral da PMAM.
A propósito, o quartel recebeu um "ataque"
partido do próprio Comandante, coronel (do Exército)
Mário Perelló Ossuosky (1975-79), que aproveitou
o desabamento de parte do reboco frontal para sustentar a demolição
do centenário edifício. A divulgação
do edito governamental, todavia, incitou manifestações
da comunidade, tanto dos organismos técnicos, quanto
dos próprios manauenses habituados com o quartel da Praça
da Polícia. As demonstrações de repúdio
impediram a consecução da legislação.
A preocupação do governador José Bernardino
Lindoso (1979-82) com os próprios estaduais foi pioneira,
pois estabeleceu que o Quartel do Comando Geral da Polícia
Militar, parte do Conjunto Arquitetônico Ambiental da
Praça Heliodoro Balbi, se encontra sob proteção
especial da Comissão Permanente de Defesa do Patrimônio
Histórico e Artístico, de acordo com a Resolução
n° 01/80, homologada pelo Decreto n° 4.817, de 6 de
dezembro de 1980.
Novamente na direção do governo do Estado, Gilberto
Mestrinho (1983-87), que convocou para o comando da Corporação,
o coronel Helcio Rodrigues Motta (1983-87). Sob este comando,
em 1985, o Quartel recebeu nova modelagem, salientando-se a
recuperação do rancho, em especial a cozinha central
e os refeitórios, agregando uma área no piso superior
ocupada por seções administrativas. Em 1993, então
na direção do quartel da Praça da Polícia,
o coronel Antônio Guedes Brandão conseguiu junto
ao governador, Gilberto Mestrinho (1991-95), a reforma do telhado
do prédio. Assim, vinte anos depois, as telhas de fibrotex
foram substituídas pelas atuais de alumínio, que
inegavelmente não causaram boa impressão e resultado
satisfatório.
Fontes:
1. Boletim Geral da Corporação
- coleção, a partir de 1936. Manaus
2. Braga, Genesino - artigo no Jornal do Commercio, de Diário
Oficial do Estado - coleção desde 1893. Manaus
3. Loureiro, Antônio José Souto. Amazonas na Época
Imperial. Manaus: T. Loureiro & Cia, 1989.
4. Mendonça, Roberto. Candido Mariano & Canudos.
Manaus: Universidade do Amazonas, 1997
5. Mesquita, Otoni. A Belle Époque Manauara. Manaus:
Valer, 1999
6. Monteiro, Mario Ypiranga. Síntese Histórica
da Polícia Militar do Amazonas. Manaus: Imprensa Oficial,
1972
7. Relatórios Provinciais - coleção.
Arquivo da Associação Comercial do Amazonas. Manaus.