
Em um universo fantástico e telúrico, onde forças
primitivas e inimagináveis para o vulgo ainda predominam,
lendas, crendices, histórias fabulosas de deuses, homens
e animais são tão reais quanto os infindáveis
rios e a vida ensolarada, e habitam a mesma dimensão mágica.
No paraíso amazônico onde tudo é possível,
ou quase tudo, o mito do boto, o príncipe encantado das
águas, assume uma feição especial, pois integra,
ao mesmo tempo, o onírico e o concreto. Do imaginário
para o real, os "filhos de boto" estão aí,
pelos beiradões, a perpetuar uma raça mística,
na qual não há distinção entre homens
e deuses.
O boto, mamífero de águas doces, é um cetáceo
delfinídeo do gênero Sotália, parente do golfinho
chinês e indiano que, desde a antiguidade clássica,
tem sido considerado um símbolo lúbrico, um fetiche
ictiofálico dedicado a Vênus ou Afrodite, deusa do
amor. A razão disso é a analogia existente entre
as qualidades protetoras e sensuais do boto tucuxi amazônico
e aquelas atribuídas ao delfim consagrado a Afrodite, a
deusa nascida do mar e protetora dos amantes.
O golfinho, ou delfim, é também associado a Apolo,
o deus da beleza, cuja associação resultou no nome
de Delfos ao seu famoso santuário na Grécia. Além
disso, uma tradição chilena, ainda hoje, conta a
história dos peixes que foram os seres humanos pré-diluvianos,
os quais, de tempos em tempos, saem dos rios e vêm procriar
com as mulheres. Em muitos mitos, por sinal, em várias
partes do mundo, sempre houve referências à fecundação
por deuses e entes mágicos.
Segundo o historiador Câmara Cascudo, alguns cronistas relataram
histórias do boto como sendo a personificação
do Uauiará, ou Uiara (Senhor das Águas), o grande
amante das mulheres caboclas e índias na mitologia tupi.
O primeiro filho de muitas nativas é atribuído ao
contato com esse deus que, ora as surpreende no banho, ora transforma-se
em mortal para seduzí-las, arrebatando-as para dentro das
águas. O boto, como Uauiará, representa o variante
masculino da Iara (Mãe-d'Água), dona de igual poder
de encantamento e sedução.
Assim, de modo amplo, o peixe está simbolizando o elemento
água, dentro da qual vive. Ele transforma-se em homem e
atinge o estado de manifestação dos poderes secretos,
trazidos das profundezas do seu elemento. O peixe também
é símbolo da vida e da fecundidade, em vista da
sua prodigiosa faculdade de reprodução e do número
infinito dos seus ovos.
Para quem conhece a Amazônia, não causa espanto que
a psique dos habitantes, principalmente a feminina, possa fazer
nascer dos imensos rios uma figura de animus. A presença
das águas determina toda a vida da região, um verdadeiro
planeta aquático, na forma das correntes fluviais, enchentes,
chuvas torrenciais ("torós"), enxurradas, ou
fenômenos incríveis como as "pororocas".
A comunhão da mulher com a natureza é tão
intensa, que um estrato de sua psique pode facilmente projetar-se
nas águas e esperar dali a vinda do amante sensual.
Consta que o órgão sexual do boto, tanto do macho
quanto da fêmea, é idêntico aos órgãos
sexuais feminino e masculino. A semelhança entre os orgãos
genitais humanos e dos botos torna verossímel a experiência
sexual que o folclore insistentemente relata e, certamente, tem
contribuído para intensificar o simbolismo do mito.
Antes da popularização do boto "amoroso",
no entanto, relatam as lendas indígenas que havia um outro
boto sério e bom, venerado pelos tapuias como um deus milagroso,
conhecido como Mira que quer dizer boto-gente, ou boto em forma
de pessoa. Essa sacralização contribuiu para que
o consumo de carne de boto se tornasse um tabu, o que faz com
que, na região, dificilmente índio ou caboclo se
atreva a comer carne de boto. Possivelmente o eco desses atributos
de bondade com relação ao boto perduram, pois, de
acordo a maiorias das tradições, ao boto é
atribuída geralmente uma função protetora,
havendo relatos de que o boto ampara as canoas em temporais e
acompanha embarcações em que viajam mulheres grávidas,
cuidando de protegê-las até que cheguem em terra
firme.
O fato é que, cercado de crendices e lendas, o boto amazônico,
ou "boto-namorador", é um dos animais mais populares
da região, e suas atividades "donjuanescas" têm
sido noticiadas em crônicas brasileiras e portuguesas há
pelo menos dois séculos. Em forma de homem, pela qual é
mais conhecido, apaixona e rapta as cunhãs, conquistando-as
nos bailes e nas beiras de rio. Ocasionalmente em forma de mulher,
"vira a cabeça" dos caboclos, deixando-os apalermados.
Diz-se que, depois de servir sexualmente ao caboclo, o boto fêmea
se apega a ele e passa a rondar a sua cabana ribeirinha e a proteger
a sua canoa dos perigos das águas. Outros dizem, ao contrário,
que o homem tem relações com o boto fêmea,
ou bota, no linguajar caboclo, morre exausto, em razão
do coito arrebatador.
Apesar das variações, o mito possui um conteúdo
predominante, que se refere à entrega sexual da cabocla
a um ser mágico. Este ser é visto como uma transformação
do boto em rapaz sedutor que arrebata a jovem com carinhos e doces
palavras e a possui nas praias mornas dos rios, em meio à
natureza enebriante e acolhedora. No lendário amazônico,
é natural atribuir ao boto a paternidade de uma bebê
inesperado. E o boto-namorador que infelicita as famílias
ao seduzir donzelas, casadas ou viúvas, é descrito
como um belo e elegante rapaz que usa sempre impecáveis
roupas brancas e chapéu preto, fala manso, e, dizem, toca
bandolim. A deslumbrante figura aparece nas noites enluaradas,
na ribeira dos rios, nos bailes e nos barrancos, e deixa sua marca
nas areias das praias e no corpo das mulheres, geralmente na forma
de um filho.
Dizem que uma mulher viciada em andar com o boto emagrece, empalidece,
fica de tal forma enredada nas malhas do sedutor, que tem que
ser levada a um curandeiro para ser liberta do encanto. Nas localidades
interioranas, é comum a recomendação de que
as mulheres não andem de canoa, não transitem pelos
beiradões quando estiverem menstruadas, e evitem o uso
de vestidos vermelhos, pois esta cor agrada ao boto e pode atraí-lo.
O caráter erótico e afetivo do mito do boto guarda
estreita relação com temperamento sensual do habitante
nativo da região que, inclusive, utiliza as partes do animal
para fazer amuletos. O olho de boto, assim como o órgão
sexual do boto fêmea, são muito requisitados por
curandeiros e feiticeiros, e tidos como matéria-prima de
amuletos de incrível eficácia em casos amorosos.
Enfim, este ente saído do mundo interior, o mundo que no
mito está simbolizando pelas águas dos rios e mares,
tem o poder de suplantar a realidade consciente porque faz parte
de um mundo mágico e telúrico, que foge à
dimensão acanhada do mundo real e no qual ainda é
possível viver o sonho e ser feliz.