Sábado, 22 de Novembro de 2008
  
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 Joaquim Franco ( Márcio Páscoa )

Joaquim de Carvalho Franco nasceu em Campinas, na antiga Província de São Paulo, hoje Estado do mesmo nome, entre 1858 e 1859. Estudou no Imperial Colégio de Música, onde, ainda com 12 anos, compôs uma marcha para piano em honra à Princesa Izabel, que levava o nome da homenageada. Sabe-se que o seu professor de música nessa época era Lourenço de Araújo Pereira, a quem a partitura era dedicada. A partir daí o restante da formação de Joaquim Franco é totalmente incerta.

Pleiteando uma bolsa para estudar no exterior, foi para a Itália, talvez Roma ou Milão, a fim de executar estudos de Direito e de Música.

Em 1884 apareceu no Norte do Brasil com uma companhia lírica, a primeira de muitas que traria às praças da Amazônia. Mas a primeira vez que se apresentou em Manaus foi em meados de 1885, ainda no Teatro Beneficente, quando acompanhou ao piano as cantoras Rosa Genolini e Adele Naghel, vindas de uma temporada lírica em Belém. Franco retornou em 1889, já para se apresentar no Éden Theatro, dirigindo uma companhia portuguesa de operetas, em que participava a meio-soprano parmegiana Adele Naghel, que também voltava ao Amazonas.

O sucesso desta temporada fez com que a recém-criada Associação Lyrica Amazonense encarregasse o maestro e empresário Joaquim Franco de trazer uma companhia lírica a Manaus. E assim o fez. Em dezembro de 1890 a capital do Amazonas ouvia a sua primeira ópera, Il Trovatore, de Giuseppe Verdi, a qual se seguiram muitas outras, até março de 1891. Novo sucesso para Joaquim Franco e nova encomenda dos amazonenses para uma segunda companhia lírica, que chegava em junho de 1892. O êxito foi grande como das vezes anteriores e os encargos do maestro já não o permitiam mais reger a orquestra, tamanha a responsabilidade dos bastidores, quer com artistas e pessoal, quer com os contratos e os materiais.

Em 1893 Joaquim Franco trazia novo grupo operístico para Manaus, mas a temporada foi um tanto ofuscada pela revolta generalizada que acontecia no Brasil e atingiu o Amazonas, especialmente Manaus, onde o governador Eduardo Ribeiro se acastelara na sede do governo estadual, resistindo à tentativa de golpe de Constantino Nery.

Joaquim Franco sempre que trazia uma companhia lírica a Manaus, levava-a também a São Luiz e Belém, onde em 1894 ele fez uma longa temporada, entre fevereiro e junho, com dezenas de espetáculos.

Neste meio tempo, Manaus construía o seu maior teatro, o Teatro Amazonas, que seria inaugurado em 31 de dezembro de 1896, justamente por uma companhia operística trazida por Joaquim Franco. A noite inaugural do Teatro Amazonas contou com a presença de muitos convidados, dentre eles artistas trazidos por Franco em momentos anteriores e que haviam se tornado queridos na cidade, como a soprano Maria Bosi. Nesta última noite de 1896 teve lugar apenas um concerto, mas em 7 de janeiro de 1897 começava a temporada lírica que durou 3 meses e contou com cerca de 50 espetáculos.

A fama e o prestígio de Joaquim Franco eram grandes em Manaus e foi aqui que ele resolveu realizar um de seus maiores projetos de vida, a Academia Amazonense de Belas Artes. Fundada a Associação Propagadora das Belas Artes em 1898, Joaquim Franco deu início ao Conservatório de Música e ao Ateliê de Artes Objetivas (artes visuais), departamentos que compunham a Academia de Belas Artes, na qual ele atuava na condição de diretor e de professor de piano para alunos do nível mais adiantado.

Joaquim Franco, então residente em Manaus, dedicou-se à promoção e divulgação de música erudita e de artes plásticas, através do Centro Artístico, que congregava o Quarteto Henrique Gurjão, a Orquestra Carlos Gomes, o Coral Padre José Maurício, a Fanfarra Henrique de Mesquita, a Filarmônica Adelelmo do Nascimento, a Escola de Música Francisco Colás, a Escola de Pintura Vítor Meirelles e o Círculo Musical Religioso Dom Antonio de Macedo Costa, com o qual o maestro se apresentou na Catedral semanalmente, durante muitos anos.

Em fins de 1905, Joaquim Franco foi chamado pelo Governo do Estado do Amazonas para organizar novamente uma companhia lírica, atividade da qual ele havia se afastado no fim da temporada de 1897. Assinado o contrato de exclusividade por 5 anos, o maestro partiu para Europa, de onde voltou trazendo uma companhia lírica francesa, para uma temporada que teve lugar no Teatro Amazonas em 1906. Um enorme sucesso o empurrou para a Europa novamente, a fim de trazer novo grupo de artistas franceses, o que aconteceu ainda no primeiro trimestre de 1907. Por causa do fim do período da borracha e das dificuldades financeiras que isto acarretou ao estado, nenhuma outra companhia de ópera voltaria ao Amazonas em muitas décadas, nem o maestro Joaquim Franco organizaria novas companhias artísticas.

Joaquim Franco retornou às suas atividades na Academia Amazonense de Belas Artes que, por causa da escassez monetária dos anos que se seguiram, reduziu-se ao Conservatório de Música. Gerações inteiras de pianistas amazonenses foram alunos do maestro Franco, tornando-se responsável por um método e uma técnica ainda hoje verificáveis.

Seus alunos destes anos temiam-no pela austeridade que, segundo algumas opiniões parecia beirar a rudeza, mas que acima de tudo se preocupava com a disciplina e a musicalidade. Seu temperamento mais ranzinza pode dever-se à idade e ao contexto em que se viu reduzido ao fim da vida. Faleceu em Manaus, em 1927. Nos últimos anos, ele morava no Conservatório que também era sua casa, nas proximidades do Teatro Amazonas.

Joaquim Franco na condição de musicista e empresário trabalhou com alguns artistas notáveis de sua época, especialmente cantores. Muitos deles tinham fama mundial e alguns podem ser considerados bastante importantes na última parte do século XIX e início do século XX. Dentre as sopranos destacam-se Adele Bianchi-Montaldo, Amalia Conti-Foroni, Leonilde Gabbi, Libia Drog, Maria Peri e Leon de Mendés. Os tenores com quem trabalhou também foram artistas de destaque, como Gino Martinez Patti, Vincenzo Maina, Demauroy e especialmente Carlo Bulterini. Os barítonos e baixos que trabalharam com Franco também eram significativos e experientes, como Enrico Serbolini, Valdor, Villette e Francesco Maria Bonini, um dos mais reconhecidos em seu tempo.


Fontes:

1. Salles, Vicente – Música e Músicos no Pará, Belém, Secretaria de Cultura do Estado do Pará, 1970
2. Páscoa, Márcio – A vida musical em Manaus na época da borracha (1850-1910), Manaus, Governo do Estado do Amazonas/Funarte, 1997
3. Páscoa, Márcio – Cronologia Lírica de Manaus, Manaus, Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas/Editora Valer, 2000.


 

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