
Joaquim de Carvalho Franco nasceu em Campinas, na antiga Província
de São Paulo, hoje Estado do mesmo nome, entre 1858 e 1859.
Estudou no Imperial Colégio de Música, onde, ainda
com 12 anos, compôs uma marcha para piano em honra à
Princesa Izabel, que levava o nome da homenageada. Sabe-se que
o seu professor de música nessa época era Lourenço
de Araújo Pereira, a quem a partitura era dedicada. A partir
daí o restante da formação de Joaquim Franco
é totalmente incerta.
Pleiteando uma bolsa para estudar no exterior, foi para a Itália,
talvez Roma ou Milão, a fim de executar estudos de Direito
e de Música.
Em 1884 apareceu no Norte do Brasil com uma companhia lírica,
a primeira de muitas que traria às praças da Amazônia.
Mas a primeira vez que se apresentou em Manaus foi em meados de
1885, ainda no Teatro Beneficente, quando acompanhou ao piano
as cantoras Rosa Genolini e Adele Naghel, vindas de uma temporada
lírica em Belém. Franco retornou em 1889, já
para se apresentar no Éden Theatro, dirigindo uma companhia
portuguesa de operetas, em que participava a meio-soprano parmegiana
Adele Naghel, que também voltava ao Amazonas.
O sucesso desta temporada fez com que a recém-criada Associação
Lyrica Amazonense encarregasse o maestro e empresário Joaquim
Franco de trazer uma companhia lírica a Manaus. E assim
o fez. Em dezembro de 1890 a capital do Amazonas ouvia a sua primeira
ópera, Il Trovatore, de Giuseppe Verdi, a qual se seguiram
muitas outras, até março de 1891. Novo sucesso para
Joaquim Franco e nova encomenda dos amazonenses para uma segunda
companhia lírica, que chegava em junho de 1892. O êxito
foi grande como das vezes anteriores e os encargos do maestro
já não o permitiam mais reger a orquestra, tamanha
a responsabilidade dos bastidores, quer com artistas e pessoal,
quer com os contratos e os materiais.
Em 1893 Joaquim Franco trazia novo grupo operístico para
Manaus, mas a temporada foi um tanto ofuscada pela revolta generalizada
que acontecia no Brasil e atingiu o Amazonas, especialmente Manaus,
onde o governador Eduardo Ribeiro se acastelara na sede do governo
estadual, resistindo à tentativa de golpe de Constantino
Nery.
Joaquim Franco sempre que trazia uma companhia lírica a
Manaus, levava-a também a São Luiz e Belém,
onde em 1894 ele fez uma longa temporada, entre fevereiro e junho,
com dezenas de espetáculos.
Neste meio tempo, Manaus construía o seu maior teatro,
o Teatro Amazonas, que seria inaugurado em 31 de dezembro de 1896,
justamente por uma companhia operística trazida por Joaquim
Franco. A noite inaugural do Teatro Amazonas contou com a presença
de muitos convidados, dentre eles artistas trazidos por Franco
em momentos anteriores e que haviam se tornado queridos na cidade,
como a soprano Maria Bosi. Nesta última noite de 1896 teve
lugar apenas um concerto, mas em 7 de janeiro de 1897 começava
a temporada lírica que durou 3 meses e contou com cerca
de 50 espetáculos.
A fama e o prestígio de Joaquim Franco eram grandes em
Manaus e foi aqui que ele resolveu realizar um de seus maiores
projetos de vida, a Academia Amazonense de Belas Artes. Fundada
a Associação Propagadora das Belas Artes em 1898,
Joaquim Franco deu início ao Conservatório de Música
e ao Ateliê de Artes Objetivas (artes visuais), departamentos
que compunham a Academia de Belas Artes, na qual ele atuava na
condição de diretor e de professor de piano para
alunos do nível mais adiantado.
Joaquim Franco, então residente em Manaus, dedicou-se à
promoção e divulgação de música
erudita e de artes plásticas, através do Centro
Artístico, que congregava o Quarteto Henrique Gurjão,
a Orquestra Carlos Gomes, o Coral Padre José Maurício,
a Fanfarra Henrique de Mesquita, a Filarmônica Adelelmo
do Nascimento, a Escola de Música Francisco Colás,
a Escola de Pintura Vítor Meirelles e o Círculo
Musical Religioso Dom Antonio de Macedo Costa, com o qual o maestro
se apresentou na Catedral semanalmente, durante muitos anos.
Em fins de 1905, Joaquim Franco foi chamado pelo Governo do Estado
do Amazonas para organizar novamente uma companhia lírica,
atividade da qual ele havia se afastado no fim da temporada de
1897. Assinado o contrato de exclusividade por 5 anos, o maestro
partiu para Europa, de onde voltou trazendo uma companhia lírica
francesa, para uma temporada que teve lugar no Teatro Amazonas
em 1906. Um enorme sucesso o empurrou para a Europa novamente,
a fim de trazer novo grupo de artistas franceses, o que aconteceu
ainda no primeiro trimestre de 1907. Por causa do fim do período
da borracha e das dificuldades financeiras que isto acarretou
ao estado, nenhuma outra companhia de ópera voltaria ao
Amazonas em muitas décadas, nem o maestro Joaquim Franco
organizaria novas companhias artísticas.
Joaquim Franco retornou às suas atividades na Academia
Amazonense de Belas Artes que, por causa da escassez monetária
dos anos que se seguiram, reduziu-se ao Conservatório de
Música. Gerações inteiras de pianistas amazonenses
foram alunos do maestro Franco, tornando-se responsável
por um método e uma técnica ainda hoje verificáveis.
Seus alunos destes anos temiam-no pela austeridade que, segundo
algumas opiniões parecia beirar a rudeza, mas que acima
de tudo se preocupava com a disciplina e a musicalidade. Seu temperamento
mais ranzinza pode dever-se à idade e ao contexto em que
se viu reduzido ao fim da vida. Faleceu em Manaus, em 1927. Nos
últimos anos, ele morava no Conservatório que também
era sua casa, nas proximidades do Teatro Amazonas.
Joaquim Franco na condição de musicista e empresário
trabalhou com alguns artistas notáveis de sua época,
especialmente cantores. Muitos deles tinham fama mundial e alguns
podem ser considerados bastante importantes na última parte
do século XIX e início do século XX. Dentre
as sopranos destacam-se Adele Bianchi-Montaldo, Amalia Conti-Foroni,
Leonilde Gabbi, Libia Drog, Maria Peri e Leon de Mendés.
Os tenores com quem trabalhou também foram artistas de
destaque, como Gino Martinez Patti, Vincenzo Maina, Demauroy e
especialmente Carlo Bulterini. Os barítonos e baixos que
trabalharam com Franco também eram significativos e experientes,
como Enrico Serbolini, Valdor, Villette e Francesco Maria Bonini,
um dos mais reconhecidos em seu tempo.
Fontes:
1. Salles, Vicente – Música e Músicos
no Pará, Belém, Secretaria de Cultura do Estado
do Pará, 1970
2. Páscoa, Márcio – A vida musical em Manaus
na época da borracha (1850-1910), Manaus, Governo do
Estado do Amazonas/Funarte, 1997
3. Páscoa, Márcio – Cronologia Lírica
de Manaus, Manaus, Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas/Editora
Valer, 2000.