
Nascido em Manaus, a 23 de novembro de 1919, Cláudio Santoro
vinha de ascendência italiana e francesa. Seu empenho no
estudo do violino fez com que o Governo do Amazonas o mandasse
estudar no Rio de Janeiro, contava ele 13 anos de idade. Frequentou
as classes de Edgard Guerra (violino), Nadile Barros (harmonia)
e Augusto Lopes Gonçalves (musicologia). Seu esforço
e talento foram tamanhos que ao fim do curso, em 1937, foi escolhido
para professor adjunto da cátedra de violino do Conservatório
de Música do Rio de Janeiro, onde estudara.
As suas primeiras composições datam desta época,
por volta de 1938, quando fez um quarteto, uma sonata para violino
e piano e algumas peças para piano, elogiadas pelo conhecido
compositor Francisco Braga. Durante a elaboração
de sua 1ª Sinfonia, passou a estudar com Hans Joachim Koellreuter,
flautista e compositor, que introduzia a técnica dodecafônica
no Brasil. A tendência de uma música mais livre já
se revelava nas primeira obras de Santoro e a estética
vanguardista de Koellreuter o impulsionou para longe do academicismo
oitocentista. Em 1940, Santoro compôs uma sonata para violino
solo e a 1ª Sonata para Violino e Piano, que chamou a atenção
de Francisco Curt Lange, que tornar-se-ía célebre
por suas pesquisas sobre a música colonial brasileira.
Curt Lange era então diretor do Instituto Interamericano
de Musicologia e publicou a sonata para violino e piano do amazonense.
Embora esta peça estivesse orientada pelo dodecafonismo,
Santoro passou alguns anos ainda compondo num estilo mais livre,
até o momento em que foi para a Europa, gozar de bolsa
de estudos obtida junto à França.
Antes disso já se dera a conhecer pelo grande público,
tendo arrematado um prêmio de composição e
sendo sua obra executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira.
A seguir, um revés: o governo norte-americano impediu-o
de entrar no país, para gozar uma bolsa de estudos concedida
pela Fundação Guggenheim. Mas neste momento dirigia-se
para estudar com a célebre Nadia Boulanger, em Paris. No
ano seguinte, 1948, recebeu um importante prêmio da Fundação
Lili Boulanger, de Boston, EUA. Na banca estavam alguns dos nomes
mais importantes da música do século XX: Igor Stravinsky,
Sergei Koussevitzky, Aaron Copland e Nadia Boulanger.
Se a estética da música de Cláudio Santoro
começara a mudar bruscamente quando da sua ida para a Europa,
sua carreira internacional desenvolveu-se notavelmente a partir
daí. Antes disso, retornando ao Rio de Janeiro, onde perdeu
o cargo na Orquestra Sinfônica Brasileira, viu-se em dificuldades
financeiras e foi morar numa fazenda no interior de Minas Gerais.
Foi também uma época de conflito existencial. Nesta
sua estada na Europa, Santoro havia estado no Congresso de Praga,
onde os compositores discutiam a música como apoio ideológico
e estético para a modificação da sociedade.
Passado algum tempo retornou ao Rio de Janeiro. Foi trabalhar
na Rádio Tupi e engajou-se em vários projetos na
tentativa de praticar uma música de inclinação
nacionalista. Tornaram-se frequentes em sua obra as citações
ao folclore, a temas regionais e de caráter popular. Fez
então música para filmes, para programas infantis
e sua 3ª Sinfonia pode ser considerada peça fundamental
desta época, em vista do prêmio obtido junto ao Berkshire
Institute, de Boston.
Sua participação no júri do Concurso Chopin,
em Varsóvia, coincide com o início de sua carreira
de regente na Europa. Sua primeira visita à União
Soviética foi em 1953, mas apresentou-se lá somente
em dezembro do ano seguinte, com enorme sucesso. Privando do contato
estreito com os maiores musicistas da ex-cortina de ferro, Santoro
prosseguiu em seu estilo nacionalista até o fim da década
de 50, havendo fundado a Orquestra de Câmara da Rádio
MEC e representado o Brasil em alguns encontros internacionais
importantes, como o Congresso Soviético de Compositores,
de Moscou, em 1957.
Um longo estágio na Alemanha Oriental, em 1961, marcou
o início de nova mudança, uma vez que, a partir
daí, retrocedeu na guinada folclorista que dera na década
anterior. Voltou a compor em estilo dodecafônico e passou
a adotar outras técnicas de vanguarda.
Em 1962, retornou ao Brasil, a convite, para criar o Departamento
de Música da respectiva faculdade, na Universidade de Brasília.
Ficou por um período curto, retirando-se em seguida para
a Europa novamente, mas ainda com tempo de criar uma pequena orquestra
e inserir um novo método de ensino musical na universidade
brasiliense. Sua saída da instituição deveu-se
a dificuldades administrativas oriundas do golpe militar mas,
com a abertura política no Brasil, ele retornaria à
UnB no fim dos anos 70.
Nesse longo período em que residiu quase que totalmente
na Europa, Santoro afirmou-se dentro da corrente estética
da música eletro-acústica, que já conhecera
em incursões anteriores ao velho continente. Ao mesmo tempo,
gozando de prestígio pela sua obra e por causa de apresentações
anteriores, foi nomeado conselheiro do Centro de Informação
e Divulgação de Músicas Latino-americanas,
no Instituto de Música Comparada, de Berlim Ocidental,
ganhando também os postos (a partir de 1970) de professor
em Heidelberg, célebre escola de música, e em Mannheim,
de importância histórica equivalente ou superior.
Em 1978 retornou para a UnB e assumiu sua cadeira no Departamento
de Artes. Imediatamente recuperou entre os brasileiros o prestígio
que uns poucos quiseram tirar, assumindo a direção
da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília,
dentre as muitas atividades e encargos acadêmicos e culturais
que passou a desenvolver.
Nessa fase mais madura de composição associou o
aprendizado e as estéticas múltiplas por que transitou
ao longo de sua formação, e realizou o que muitos
consideram a sua melhor obra.
A obra mais importante de Santoro tem sido considerada o seu grupo
de 14 sinfonias, em especial a 10ª e seguintes, pelo universalismo
e arrojo.
Quando a morte lhe chegou em 1989, estava ainda em plena atividade,
bastando que se diga que o infarto fulminante lhe pegou em meio
aos ensaios com a orquestra do Teatro Nacional, da qual era regente
titular.
Sua ópera Alma (1984), escrita unicamente em versão
reduzida para as vozes e piano, ganhou uma versão cênica
em Manaus, durante o II Festival de Óperas, em 1997.
Fontes:
1. Mariz, Vasco – História
da Música Brasileira, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1994
2. Enciclopédia da Música Brasileira: erudita, folclórica
e popular, São Paulo, Art Livre, 1977.