
O compositor e violinista Elpídio Pereira veio para o Amazonas
numa leva de valores intelectuais maranhenses, que incluía,
dentre outros, Eduardo Ribeiro e Raul de Azevedo.
Nascido em Caxias (MA) em 16 de outubro de 1872, Elpídio
Pereira tomou seus primeiros estudos musicais com os mestres de
banda de sua cidade natal; primeiro Antônio Cariman, depois
Antônio Coutinho. Seus pais reconheceram seu talento e interesse
e mandaram-no para Lisboa, onde entrou no conservatório
com o fito de se preparar para o exame de admissão no Conservatório
de Paris. Indo para esta escola francesa, passou a freqüentar
a classe de harmonia do professor Taudou, na qualidade de aluno-ouvinte,
oportunidade em que conheceu Francisco Braga, que também
tornar-se-ia compositor. Neste meio tempo, mantinha aulas particulares
de harmonia com Domenico Ferroni, posto que seu objetivo maior
era o domínio da composição musical.
Mas, entre 1892 e 1893, uma grave crise brotava no Brasil e atingiu
diretamente o pai de Elpídio Pereira que, sem meios de
continuar provendo o sustento do filho, chamou-o de volta. Foi
neste momento que o compositor veio para o Amazonas pela primeira
vez. Teve uma breve estada em Belém, onde permaneceu algum
tempo, mas o seu destino era Manaus, posto que sua família
tinha aqui membros e amigos.
Em Manaus, Elpídio Pereira encontrou 2 irmãos e
o Visconde de Vila Gião, amigo chegado da família,
e recebeu um convite de Adelelmo do Nascimento, professor público
de música e afamado concertista, para participar de um
recital, onde poderia tocar 2 peças. Elpídio Pereira
escolheu então uma composição sua, a «Serenade
Brasilienne», para a primeira vez em que sua obra seria
ouvida no Brasil. Foi visitar a família em Caxias, oportunidade
em que deu concertos em Belém, Teresina e São Luís.
Na capital maranhense, Elpídio Pereira foi convidado por
Joaquim Franco, que ele conhecera em Manaus, a integrar a orquestra
da companhia lírica que correria o norte naquela temporada.
Após a estação lírica fixou-se por
2 anos em Belém, até que o pai foi trabalhar em
Manaus, como agente da Companhia de Navegação Maranhense.
De volta a Manaus, Elpídio Pereira trabalhou de início
com o pai, e depois quando um incêndio destruiu os bens
da família, na Casa Marius & Levy.
Mas esta situação não duraria muito tempo.
Com a aposentadoria de Adelelmo do Nascimento das suas funções
do Gymnasio Amazonense, Elpídio Pereira foi chamado para
ocupar interinamente a vaga, de vez que privava da amizade do
chefe de gabinete do Governador Fileto Pires, o escritor e crítico
teatral Raul de Azevedo. Foi justamente este amigo quem sugeriu
a Elpídio Pereira sua nova ida para a França, desta
vez como bolsista do Estado do Amazonas. Neste meio tempo em Manaus,
o musicista maranhense já se envolvera com os freqüentes
concertos festivos da Catedral. Sua estada em Paris como bolsista
do Amazonas durou de 1898 a 1902, tendo retomado seus estudos
com Ferroni. Antes de seu retorno a Manaus, deu 2 concertos na
Sala Hoche, regendo a Orquestra dos Concerts Lanmoureux, que executava
exclusivamente peças suas. No retorno ao Brasil, daria
ainda outro concerto em Lisboa.
Chegado a Manaus em maio de 1902 fez vários concertos com
obras suas, com orquestra e grupo de câmara, tendo tomado
parte o maestro Joaquim Franco, os violinistas Lourival Muniz,
Gentil Bittencourt, Armando Lameira, o violoncelista Cesare Vesce
e muitos outros, quase todos ligados à Academia Amazonense
de Belas Artes.
Elpídio Pereira partiu então para uma turnê
a capitais de outros estados brasileiros, dentre eles Rio de Janeiro
e São Paulo, divulgando as obras que compusera no gozo
da bolsa de estudos que o Amazonas lhe proporcionara. Em 1906,
no início da gestão de Antonio Constatino Nery e
com a perspectiva de receber novo estipêndio para retornar
a seus estudos na França, Elpídio Pereira retornou
ao Amazonas e permanceu mais 2 anos em Manaus.
Além de habituais concertos, inclusive na condição
de organizador, redigiu as críticas operísticas
para o jornal «A Platéa», que com seus 14 números
cobriu a temporada lírica de 1907. Utilizava o pseudônimo
de Elpis, visto que chegou a se apresentar na Catedral em um concerto
com os membros da Companhia Lírica Francesa deste ano,
trazida por Joaquim Franco.
Ainda em 1907, no mês de maio, 2 bandas militares e um coro
infantil de mil vozes executaram o Hino Escolar do Amazonas, composto
pelo maranhense.
Entretanto, mudanças no mando do governo estadual apagaram
de vez as expectativas de Elpídio Pereira em receber nova
subvenção do Amazonas. Ele ainda permaneceu em Manaus
até abril de 1908, retirando-se depois para o Rio de Janeiro.
Na capital carioca conseguiu uma bolsa do governo federal e retornou
à França em 1913. Em 1921 obteve a nomeação
de auxiliar do Consulado do Brasil, em Paris, de onde se aposentou
em 1940, retornando definitivamente ao Rio de Janeiro, onde faleceu
em 13 de abril de 1961.
Elpídio Pereira deixou uma ópera, chamada «Calabar»,
sobre o personagem histórico. Segundo sua auto-biografia
ele deve ter começado a concebê-la ainda nos anos
em que esteve ligado ao Amazonas. Entretanto, tendo terminado
de escrevê-la somente nos anos 10, encontrou alguma resistência
para montá-la, havendo quem o criticasse por ter escolhido
um personagem titular de conduta considerada duvidosa. Elpídio
Pereira pode ter escolhido o assunto influenciado pelas correntes
políticas libertárias que abundavam no Norte do
Brasil, não sendo a sua ópera a primeira escrita
na Amazônia sob tais auspícios. De qualquer forma,
«Calabar» não conseguiu ser montada e uma execução
parcial foi feita em meados dos anos 10.
A obra de maior êxito de Elpídio Pereira foi o balé
«Les Pommes du Vosin» montado no teatro parisiense
«Gaité Lyrique», com enorme sucesso, chegando
a 76 representações consecutivas.