
Um dos nomes marcantes para as artes no Amazonas é do italiano
Domenico De Angelis. Nascido em Roma em 1852 ou 1853, ele estudou
na célebre Academia di San Luca, uma das mais antigas e
renomadas escolas de arte, desde a sua fundação
no Renascimento (século XVI). Nesta escola, De Angelis
teve como principais professores os Cavalieri Carta e Podesti,
bem como Alessandro Marini, conhecido retratista daqueles dias.
O curso dos estudos numa Academia como a de San Luca incluíam
concursos, provas de habilidade e um prestígio advindo
de concorrências públicas, exames para obtenção
de bolsas, etc. Caminhos semelhantes tomavam os formados na egrégia
instituição, candidatando-se aos trabalhos mais
cobiçados.
De Angelis associou-se a Giovanni Capranesi, colega seu de academia
e que mais tarde obteve o maior de todos os trunfos, sendo diretor
em 1911 da Academia di San Luca. Com Capranesi, excelente pintor,
De Angelis obteve triunfos de grande brilho. Seu primeiro trabalho
em conjunto foi em 1882, numa sala do Palácio Ferri, que
rendeu-lhe os mais rasgados elogios de Luca Carimini, outro egresso
da Academia di San Luca e que ostentava enorme prestígio
naquele momento.
Ao bem-sucedido início da dupla, seguiram-se mais trabalhos
de importância igual como as decorações do
Salão do Banco da Itália e do Salão de Bailes
do Palácio Campanari, toda a idealização
da câmara do Imperador da Germânia dentro do Quirinal
e a pintura da Capela do Sagrado Coração na Igreja
de São Inácio, para citar apenas alguns.
Justamente pela mestria no trabalho com temas sacros é
que De Angelis foi convidado para vir ao Brasil pela primeira
vez. Dom Antonio de Macedo Costa, Bispo do Pará, planejava
um remodelamento para a Catedral de Belém e, com o apoio
direto do imperador brasileiro e do Vaticano, conseguiu trazer
o ateliê De Angelis/Capranesi para a execução
dos trabalhos.
Ainda em Belém, De Angelis e seu sócio puseram-se
a trabalhar em mais uma obra de vulto, o teto da sala de espetáculos
do Teatro da Paz, que infelizmente desabaria alguns anos mais
tarde por erros na estrutura arquitetônica.
Por volta do ano de 1886 a atuação de De Angelis
na Amazônia era tão intensa que ele quase fixou residência
em Manaus, para onde ele fôra chamado a trabalhar, na Igreja
de São Sebastião.
Não foi à toa que Crispim do Amaral, encarregado
das obras decorativas do Teatro Amazonas, chamou De Angelis para
executar as obras da Sala de Espetáculos e do Salão
Nobre do Teatro Amazonas.
Na Sala de Espetáculos o ateliê do iminente artista
providenciou o teto, com um tema alegórico neoclássico
típico, de alegoria às faculdades humanas, à
mitologia clássica e ao ambiente campestre. Dominada por
uma pérgola que se dispõe na direção
da cúpula do próprio teatro, toda a ação
passa-se mais em dispersão do centro e apontando para a
parte dianteira onde o busto de Carlos Gomes foi pintado como
referência mais importante dentro de um ambiente parnasiano.
O Salão Nobre do Teatro Amazonas, por sua vez, foi totalmente
elaborado por De Angelis e Capranesi (a Sala de Espetáculos
tem muitos outros objetos pré-fabricados, típicos
da estética Art-Nouveau e que foram trazidos da França).
O teto do Salão Nobre tem como tema a Glorificação
das Artes no Amazonas, com as musas no desenvolvimento de suas
habilidades. O piso foi construído segundo um dos ofícios
artísticos mais em voga na época, a da montagem
de desenhos alusivos à natureza e grafismos, numa técnica
que reúne centenas ou mesmo milhares de peças de
madeira recortadas para este fim, chamada de marchetaria. A utilização
de madeiras diferentes permitiu o contraste desejado para realçar
os desenhos. Um conjunto de telas, pintadas por Capranesi (embora
não assinadas) no ateliê da dupla romana, que se
localizava na Praça Vittorio Emanuele na capital italiana,
compreende temas da paisagem amazônica e uma delas em especial,
baseia-se em «O Guarany». A maior das pinturas, na
parede da sala que dá para o lado interno do teatro, retrata
Peri salvando Ceci do incêndio, conforme o argumento da
ópera de Carlos Gomes.
As colunas e a balaustrada do mezanino são obra de estucaria
refinada e só ao olhar mais treinado diferenciam-se dos
autênticos mármores das portadas da sala.
Um outro detalhe que revela a procedência da obra artística
é a profusão de anjinhos (putti, no italiano, meninos)
que foram pintados nos vãos superiores de junção
das colunas, característicos da pintura acadêmica
italiana de tendência religiosa.
E ainda que o mobiliário deste salão de honra do
Teatro Amazonas possa ter sido escolhido por Crispim do Amaral,
assim como pode ter sido deste a idéia dos bustos junto
às cimalhas das portas, foi o escultor Enrico Quatrini,
da equipe de De Angelis quem certamente preparou o espaço
para uns e fez os outros. Quatrini também é relacionado
ao monumento de abertura dos portos do Amazonas, localizado na
Praça de São Sebastião.
A equipe de De Angelis e Capranesi contava ainda com Francesco
Alegiani e o arquiteto Sílvio Centofanti, que chegou a
estabelecer escritório em Manaus, lecionou na Academia
Amazonense de Belas Artes e sobre quem recaem responsabilidades
como a pavimentação da mencionada praça de
São Sebastião.
O trabalho de De Angelis no Teatro Amazonas foi quase, certamente,
um dos últimos de sua vida. Doente, partiu de Manaus às
vésperas de falecer, na Itália, em março
de 1900, o que o fez ser pranteado por quantos admiradores e amigos
aqui deixou.
Fontes:
1. Páscoa, Márcio – A
Vida Musical em Manaus na Época da Borracha (1850-1910),
Manaus, Governo do Estado do Amazonas, 1997.
2. Valadares, Clarival do Prado – Restauração
e recuperação do Teatro Amazonas, s.l., Governo
do Estado do Amazonas, 1974.
3. Galetti, U. e Camesasca, E. – Enciclopedia della pintura
italiana, Itália, Aldo Garzanti ed. 1950
• Diário de Notícias (Manaus), 30 de março
de 1900.