Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2009
  
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  Domenico de Angelis ( Márcio Páscoa )

Um dos nomes marcantes para as artes no Amazonas é do italiano Domenico De Angelis. Nascido em Roma em 1852 ou 1853, ele estudou na célebre Academia di San Luca, uma das mais antigas e renomadas escolas de arte, desde a sua fundação no Renascimento (século XVI). Nesta escola, De Angelis teve como principais professores os Cavalieri Carta e Podesti, bem como Alessandro Marini, conhecido retratista daqueles dias.

O curso dos estudos numa Academia como a de San Luca incluíam concursos, provas de habilidade e um prestígio advindo de concorrências públicas, exames para obtenção de bolsas, etc. Caminhos semelhantes tomavam os formados na egrégia instituição, candidatando-se aos trabalhos mais cobiçados.

De Angelis associou-se a Giovanni Capranesi, colega seu de academia e que mais tarde obteve o maior de todos os trunfos, sendo diretor em 1911 da Academia di San Luca. Com Capranesi, excelente pintor, De Angelis obteve triunfos de grande brilho. Seu primeiro trabalho em conjunto foi em 1882, numa sala do Palácio Ferri, que rendeu-lhe os mais rasgados elogios de Luca Carimini, outro egresso da Academia di San Luca e que ostentava enorme prestígio naquele momento.

Ao bem-sucedido início da dupla, seguiram-se mais trabalhos de importância igual como as decorações do Salão do Banco da Itália e do Salão de Bailes do Palácio Campanari, toda a idealização da câmara do Imperador da Germânia dentro do Quirinal e a pintura da Capela do Sagrado Coração na Igreja de São Inácio, para citar apenas alguns.

Justamente pela mestria no trabalho com temas sacros é que De Angelis foi convidado para vir ao Brasil pela primeira vez. Dom Antonio de Macedo Costa, Bispo do Pará, planejava um remodelamento para a Catedral de Belém e, com o apoio direto do imperador brasileiro e do Vaticano, conseguiu trazer o ateliê De Angelis/Capranesi para a execução dos trabalhos.

Ainda em Belém, De Angelis e seu sócio puseram-se a trabalhar em mais uma obra de vulto, o teto da sala de espetáculos do Teatro da Paz, que infelizmente desabaria alguns anos mais tarde por erros na estrutura arquitetônica.

Por volta do ano de 1886 a atuação de De Angelis na Amazônia era tão intensa que ele quase fixou residência em Manaus, para onde ele fôra chamado a trabalhar, na Igreja de São Sebastião.

Não foi à toa que Crispim do Amaral, encarregado das obras decorativas do Teatro Amazonas, chamou De Angelis para executar as obras da Sala de Espetáculos e do Salão Nobre do Teatro Amazonas.

Na Sala de Espetáculos o ateliê do iminente artista providenciou o teto, com um tema alegórico neoclássico típico, de alegoria às faculdades humanas, à mitologia clássica e ao ambiente campestre. Dominada por uma pérgola que se dispõe na direção da cúpula do próprio teatro, toda a ação passa-se mais em dispersão do centro e apontando para a parte dianteira onde o busto de Carlos Gomes foi pintado como referência mais importante dentro de um ambiente parnasiano.

O Salão Nobre do Teatro Amazonas, por sua vez, foi totalmente elaborado por De Angelis e Capranesi (a Sala de Espetáculos tem muitos outros objetos pré-fabricados, típicos da estética Art-Nouveau e que foram trazidos da França).

O teto do Salão Nobre tem como tema a Glorificação das Artes no Amazonas, com as musas no desenvolvimento de suas habilidades. O piso foi construído segundo um dos ofícios artísticos mais em voga na época, a da montagem de desenhos alusivos à natureza e grafismos, numa técnica que reúne centenas ou mesmo milhares de peças de madeira recortadas para este fim, chamada de marchetaria. A utilização de madeiras diferentes permitiu o contraste desejado para realçar os desenhos. Um conjunto de telas, pintadas por Capranesi (embora não assinadas) no ateliê da dupla romana, que se localizava na Praça Vittorio Emanuele na capital italiana, compreende temas da paisagem amazônica e uma delas em especial, baseia-se em «O Guarany». A maior das pinturas, na parede da sala que dá para o lado interno do teatro, retrata Peri salvando Ceci do incêndio, conforme o argumento da ópera de Carlos Gomes.

As colunas e a balaustrada do mezanino são obra de estucaria refinada e só ao olhar mais treinado diferenciam-se dos autênticos mármores das portadas da sala.

Um outro detalhe que revela a procedência da obra artística é a profusão de anjinhos (putti, no italiano, meninos) que foram pintados nos vãos superiores de junção das colunas, característicos da pintura acadêmica italiana de tendência religiosa.

E ainda que o mobiliário deste salão de honra do Teatro Amazonas possa ter sido escolhido por Crispim do Amaral, assim como pode ter sido deste a idéia dos bustos junto às cimalhas das portas, foi o escultor Enrico Quatrini, da equipe de De Angelis quem certamente preparou o espaço para uns e fez os outros. Quatrini também é relacionado ao monumento de abertura dos portos do Amazonas, localizado na Praça de São Sebastião.

A equipe de De Angelis e Capranesi contava ainda com Francesco Alegiani e o arquiteto Sílvio Centofanti, que chegou a estabelecer escritório em Manaus, lecionou na Academia Amazonense de Belas Artes e sobre quem recaem responsabilidades como a pavimentação da mencionada praça de São Sebastião.

O trabalho de De Angelis no Teatro Amazonas foi quase, certamente, um dos últimos de sua vida. Doente, partiu de Manaus às vésperas de falecer, na Itália, em março de 1900, o que o fez ser pranteado por quantos admiradores e amigos aqui deixou.


Fontes:

1. Páscoa, Márcio – A Vida Musical em Manaus na Época da Borracha (1850-1910), Manaus, Governo do Estado do Amazonas, 1997.
2. Valadares, Clarival do Prado – Restauração e recuperação do Teatro Amazonas, s.l., Governo do Estado do Amazonas, 1974.
3. Galetti, U. e Camesasca, E. – Enciclopedia della pintura italiana, Itália, Aldo Garzanti ed. 1950
• Diário de Notícias (Manaus), 30 de março de 1900.



 
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